terça-feira, 20 de setembro de 2011

À MI’A ALMA II - Saborear o Mistério




Debaixo das pedras,
Camadas das dores,
Crescem roseiras.
Ornarão teu corpo
Saciarão tua alma 


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

ENTRANHAS - II PARTE


 


2 PARTE : SILÊNCIO DESCONCERTANTE



O rapaz estava dormindo. Passou a primeira parte do dia acordado tentando manter-se em silêncio contemplativo. Fracassou. Um pedaço da tarde sentiu uma leve tentação de evadir-se daquele lugar e voltar para junto das ossadas. Mesmo nisso teve medo. Decidiu dormir. Despertou com a luz das estrelas caída em sua face sonolenta. Levantou-se e caminhou um pouco pelo espaço vazio de seu silêncio. Deixem-me descrever o lugar. Não era bem um círculo. Apenas um retângulo anômalo onde por algum motivo os ossos não alcançaram. Terra seca. Nem um raminho de capim que fosse nascia ali. Apesar de estar quase colado aos ossos, o menino sentia estar em outra dimensão; havia um mistério naquele espaço vazio. Esfregou os pés no chão. Era tão real que o fundo dos pés ficou todo marcado. Pensou que fosse ilusão e por isso sujeitou-se à experiência. Não era bem uma certeza que procurava, mas antes de tudo, uma desculpa para fugir de seu silêncio por que sempre trazem os barulhos que seu modo de viver tenta abafar cotidianamente.
O sol bateu no rosto. O estalar dos ossos de seres mortos também o fez se levantar. Deu de frente com a voz novamente. Sob os olhares atentos do rapaz, a Voz começou a abrir caminho entre os ossos que o cercavam até o limite onde não havia essa realidade. O menino contemplou a estrada feita. Por aí podes ir, falou a voz, volta ao domínio de teus medos e esperar teu retorno a este recinto. Contarei a história de um menino que recuou ante a oportunidade de defrontar-se com suas trevas. Darei eternidade ao seu crânio, não se preocupe. Não cairá no esquecimento. Sempre passam por aqui peregrinos que proponho um destino diferente ao que parece já estar traçados por suas angústias. O rapaz titubeou um pouco, mas decidiu permanecer e tentar se disciplinar quanto ao silêncio. Ele sentiu uma palmada no ar e de imediato caíram pedaços de um corpo. Espalhado pelo espaço vazio estava a ossada completa de um humano. Tu tens a oportunidade de tomar consciência de teus pedaços e, mais ainda, de integrá-los. O rapaz estava assombrado. Precisava perguntar. Suspirou fundo e desabafou: - Essas coisas sou eu? Sim, friamente respondia a Voz, és tu! Ele desmaiou. Algum tempo depois voltou a si. Continuou com suas perguntas. Que devo fazer com isso? Nada, respondeu a Voz. Concentre-se no seu silêncio e nada mais. Não adianta ter janelas ou portas se não sabes onde e quando o sol baterá mais forte; ou de onde melhor se contemplam estrelas; tens que dá nome a teus medos; precisas ir aonde tu mesmo trancaste a porta e fingiste ter perdido a chave. Não estás obrigado a abrir, mas ao menos, tenha consciência de que ainda guardas a chave em algum lugar de teu interior. O rapaz percebeu que só dependia de sua vontade agora. Foi para uma das extremidades do local e se pôs a praticar a arte do silêncio.
Estava algum tempo já em silêncio. Seu espírito vagava pelas águas inquietas de seu ser. Parou diante de um redemoinho que devia ser o causador de toda a agitação. Não atreveu aproximar-se. Também não fugiu. Estava no epicentro de sua dor. Lá fora, seu corpo doía; era atingido pela tensão que internamente se passava. O rapaz ficou naquela distância e observava o redemoinho. Seus olhos se abriram e viu algumas cenas, meio embasadas, que tinha decidido nunca mais revisitar. A gênese de todos os seus medos. Começou a odiar o redemoinho, a desferir palavras agressivas e obscenas em sua direção. Seu peito explodia de raiva contra a força do redemoinho. Os ossos que lhe rodeavam tremiam e se mexiam, aproximando-se um do outro. A respiração do rapaz estava ofegante. Para sua surpresa, chegou ao seu nariz um perfume trazido nos braços de uma brisa suave. Deixou-se embeber por ele, invadir toda a região de seu corpo tenso e quebrantado. Procurou a origem de tão inebriante perfume e viu que ele nascia justamente do redemoinho. Misturavam-se e se alternavam sentimentos de raiva e encanto. Ele tomou consciência do que estava acontecendo e balbuciou bem suave, porém com a força de um tufão: Onde mais temo é onde está minha nascente!
Ao despertar do seu silêncio, o rapaz espantou-se ao ver alguém parado diante de si estendendo-lhe uma chave. Quem é você? Inquiriu. Eu sou aqueles ossos que estavam no chão. Tome, esta chave lhe pertence. O rapaz pegou a chave e a pessoa sumiu. 

À MI'A ALMA I - saborear o Mistério



 
Acompanha tua saudade,
Ó olhares lacrimejantes,
Contempla o deslumbre
Do amor que escorre
Por entre as pulsações


terça-feira, 13 de setembro de 2011

SÊ PLENO

SONHOS ESVOAÇANTES

GRITO HUMANO

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Deparamo-nos com certas situações humanas e nos comportamos como meros observadores de um espetáculo. É o que está acontecendo agora nessa tarde de domingo num ponto da capital de Minas Gerais. Um espetáculo humano.
A mulher sentou duas cadeiras mais à frente onde eu repouso em companhia agradável de um amigo. O olhar inquieto dela passeia, gira - qual mosca esvoaçante - por todos os ângulos do recinto sem se fixar em coisa alguma, e, ao mesmo tempo, em tudo. Percebo seu espírito angustiado. Uma dor terrível habita em seu peito e atormenta suas pulsações. Anseia avidamente agarrar-se a qualquer coisa. Quer esquecer por segundos eternos as punhaladas que recebe seu respirar. Na verdade, tem vontade de aniquilar todo esse tormento da alma. Porém, não há sinais visíveis de janelas ou fagulha alguma de luz no final do túnel. Estava absorta em suas trevas. E se houvesse em cada um de nós um botão vermelho que bastaria acionar para a existência despedir-se deste mundo? Sorria com o espírito aliviado diante de pensamentos maléficos contra a própria vida.
Opa! Me distraí com essa descrição que terminei por esquecer de dar atenção a meu amigo; percebo que está um pouco sem jeito com minha postura de observador implacável do estrato humano. Eu e ele voltamos a conversar sobre assuntos diversos, mas um em especial, toma mais nossas falas. Resiliência. O ser humano é capaz de dar a volta por cima, mesmo em situações complexas de sua história. Eis a sentença que ele sugeriu. Ele está relatando fatos de pessoas conhecidas que superaram dramas e traumas quase insuperáveis. Uma prima dele lá do interior de Minas era exemplo disso. O filho pequeno dela morreu, de repente, acometido por uma doença rara. Ela conseguira dar a volta por cima de modo surpreendente. Ninguém acreditou. Alguns, mais incrédulos, afirmaram que ante a dor insuportável da perda precoce ela sofreu amnésia. Fiz memória, por minha vez, de um cachorro que havia sofrido sete atropelamentos de carro, moto, bicicleta, carrinho de rolimã e, creiam, até de carrinho de picolé. Tinha tudo para se trancar na casa de seu dono e viver o resto de sua vida aguardando o dia inesperado da ascensão do espírito à Morada Canina. Entretanto, pasmem, todos os dias ele tentava atravessar a rua. Aqui, novamente os mais incrédulos não poupam seus comentários ao afirmarem que não é pelo risco de viver, senão pela cadela que vive no outro lado da rua que ele se precipitava. Terminado as exemplificações de um e outro, decidimos pedir um prato de espaguete à bolonhesa. A vida é um ar que precisa ser soprado a todo instante para ganhar altitude, disse meu amigo, inaugurando outro assunto para tergiversarmos.
Desculpem não dá atenção à sentença de meu amigo, não é desprezo a ele e nem à proposição, mas é que a mulher acaba de se levantar da mesa e vem em nossa direção. Passou. Despencou numa cadeira ao lado da nossa. Não compreendia, mas essa mulher estava me deixando angustiado. Queria entender suas chagas, aquilo que roubara a labareda de ânimo de sua alma. Ela seguia com sua agitação. Gritava por algo que abrandasse a fúria de não-viver. Puxou um pouco o vestido, aguçou o olhar instintivo como uma leoa no cio. Eram lapsos que iam e viam. Instantes depois a vi com outro olhar na face. Do outro lado da rua havia um rapaz que parecia ser traficante. Ela se fixou nele. Suas pupilas almejaram lançar-se à loucura, à des-razão das drogas. O espaguete chegou. Há um nó na minha garganta, como um rio seco por causa da esperança represada nos submundos daquela alma.
Ela ergueu-se de supetão. Tomei um susto. Fez um meneio com a cabeça e sumiu na esquina. Acabou o espetáculo. Ela me provou, sem nenhum esforço, que eu sou um humano tão medíocre, incapaz de dar atenção a um grito de outro humano suplicando um olhar, uma palavra, um gesto que o motivasse seguir existindo.