sábado, 23 de abril de 2011

TRAVESSIA HUMANA




Humano em constante trânsito
Percorre as estradas da história
Perscruta o sentido do caminhar

Pisadas delineadas pela memória
Caminhos cativos dessa travessia
Contém os sinais de dor e morte.

Mas isso não impede de sonhar:
Almejar a Páscoa, firme norte,
Encontrar-se com a liberdade!

Vitória sobre a força da morte!
Não há Páscoa sem Primavera
Dos que sofrem nesse mundo.

Sair de uma vida que grita e geme
Entrar na vida que celebra e canta!
Dignidade Humana: Ressurreição!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

FALECE UM CIDADÃO




Era três da tarde quando faleceu na cruz um cidadão de Jerusalém. Fora morto por inveja e ódio de outros humanos. Caira um inocente sem vida. O madeiro suspende aquele que a sociedade não conseguira comprender, nem amar; na cruz, estão cravadas as desigualdades, egoísmos, individualismos de uma Humanidade com pulsações mecanizadas por insanos interesses. Na cruz morre o cidadão.

Era uma, duas, três…doze horas, quando faleceu José, Ana, Joaquim… Maria. Todos eram humanos como seus algozes. Foram mortos pela ignorância de seus semelhantes. Quanto mais se descobre do humano, capacidades e debilidades, curiosamente, mais o humano se desfigura; sem vida, os Josés e Marias caem a cada hora, inocentes. Morrem na cruz fabricada pelas mãos humanas.

Por mais que se torne um valor ter humanos caídos como se fossem folhas de outono, não consigo me convencer que seja um traço indélevel da natureza humana, sua própria destruição. O amor colocado como sentimento caduco, covardia diante da realidade que devo assumir em detrimento da sobrevivência de minhas carnes - um dia apodrecerão à vista de qualquer outro. Defronte o amor pregado na cruz, ainda assim continuará sendo minha bandeira, ainda que me custe o desabandono e a ignorância diante dos que pensam que o amor é apenas jogo de forças.

Não. O amor não é isso. O amor se configura no paradoxo da Cruz. Nela os Cristãos veem mais que morte. Veem a vida brotando da Cruz. Contemplam a plenitude do amor. Sentem o coração abrir-se numa explosão desse amor que só pode vir de Deus. Engana-se, quem pensa que a existencia se mede por forças. O amor é Mistério.

A vida é dom. Nasce do amor entregado na Cruz. Almejo que os olhares se acostumem a contemplar o amor que escorre do manancial da Cruz. Suplico que o coração não se prenda às vidas que caem a cada instante como realidade última, consequências do coração esquecido do amor e o respeito pelo outro; pedirei graça que o olhar não se despregue da Cruz que ensina o sentido verdadeiro de amar: Perdoar a ignorância dos que desconhecem o dom da vida e, acima de tudo, acreditar que um dia as pulsações humanas ganharão novos sabores diante do Cristo que resignifica a Morte na Cruz. Mistério. Amor.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

CRATERA NO CAMINHO




Havia uma Cratera tomando a extensão da estrada. À beira dela iam se agrupando andarilhos. Uns mortos; outros gravemente feridos jaziam no seu interior. Comportavam das mais diversas e estranhas formas possíveis diante da Cratera. Mas ninguém se arriscava a transpô-la por medo, desânimo e outras crendices.
Um casal. O homem era alto, terno e gravata azul, pasta na mão, ia para o trabalho e a mulher, com o filho no colo mamando, ia para o posto de saúde. Eles chegaram a este ponto da estrada. Sentaram. Olharam para trás e decidiram ficar por ali conformados com o que já tinham percorrido; não tinham mais o que viver. Aliás, até tinham, mas a Cratera lhes impunha um limite. A aposta da existência chegara ao fim. Esperariam, passivos, o fim de seus dias diante da Cratera, do obstáculo à sua frente.
Um jovem matemático. Em pé, observava toda a dimensão da Cratera e calculou, demoradamente, como poderia fazer para atravessá-la. Esbarrou nos custos de tal empreendimento e logo desistiu. Também ele olhou para trás e chorou amargamente o término precoce de sua caminhada. Tão jovem e com um futuro brilhante pela frente, desabafava. Logo atrás, ainda distante do local, ouvia-se o choro e lamento de uma jovem que, antes mesmo de ver o ocorrido, sofria a moléstia que a atingiria. Por outro lado, teve um que mesmo vendo toda a movimentação diante da Cratera, continuou seu caminho, dizendo para si mesmo que era uma miragem e que jamais isto aconteceria com ele. Não preciso falar de seu fim.
Para citar só mais dois casos entre milhares, houve um humano que pulou - desesperançado e angustiado – imprimindo nos demais, a imagem de seu olhar melancólico de quem já tinha morrido há mais tempo. Por fim, relato o caso de um senhor de meia idade que chegando junto à Cratera, assombrou-se com sua profundidade e enfartou ali mesmo à beira da Cratera. Não demorou para visualizar uma fileira de cadáveres à beira da Cratera.  
O mais surpreendente foi quando erigiram um altar à Grande Cratera. Criaram regras, condutas éticas, Comércio que tinha grande demanda. A situação estática da vida, ausência de vida que se lhes descortinava diante da Cratera, na Cratera era o principal motivo da nova religião, tendo como lema: “Para ela viemos. Ela nos supera em tamanho e extensão e nela permaneceremos. Transpô-la é loucura e devaneio de insensatos”. Esta era a regra máxima da nova religião. O tédio tinha que ser preenchido e naquele momento era o que tinha de melhor. Angustiados, depressivos e tantos outros aderiram. Se da Cratera ouviam-se gritos, diziam ser ela reclamando oferendas e sacrifícios. Havia uma multidão que vivia nas proximidades da Cratera. Mesmo sem nela terem caído por ela foram envolvidos na escuridão. Cair na Cratera era destino e graça, assim explicaram as quedas e os suicídios.
Os dias corriam sem muita novidade na vida em torno da Totalmente Outra e intransponível. A ausência de ânimo e coragem chegou num nível tão alto que sempre que se aproximava um andarilho, logo era convencido da impossibilidade de seguir à frente. Entretanto, entre os muitos andarilhos que chegavam diariamente ao Templo da Cratera - a aglomeração ganhou status de Templo – Um andarilho não se curvou, nem aceitou a condição dos que viviam daquele modo. Insistiu que precisava continuar caminhando. Sua vida era caminho. Parar era descanso, nunca conformação. Levantou a bandeira que regia sua existência. E de muitas maneiras tentaram convencê-lo do contrário; enquanto descansava, vários iam ao seu encontro falando e pregando a superioridade da Grande Cratera.
Certo dia, porém, reposto de suas energias, o andarilho contemplou a todos. Olhou a Cratera. Virou-se para trás. Refez o caminho no saudoso olhar. Ouviu os gritos dos que haviam caído ou se jogado na Cratera e ainda agonizavam. Por fim, sentiu a brisa vindoura do outro lado acariciando-lhe a face, enchendo-lhe de coragem e ânimo. Apesar de toda a gritaria que tentava, em vão, persuadi-lo a não tentar ultrapassar a Cratera, afirmando que ele deveria aceitar essa situação da existência, aproximou-se da Cratera lançou um olhar decidido para o seu interior e começou a descer, escalando calmamente e com muito cuidado para não cair. Sumiu nas trevas da Cratera. As pessoas resmungavam que ele tinha sido avisado do perigo e não era culpa nem das pessoas, nem da Cratera. Oravam para que a Cratera tivesse misericórdia da petulância do andarilho em querer enfrentá-la.
Dois dias depois, um grito. A agitação tomou conta da multidão alvoroçada. Do lado extremo, terminava o homem a escalada. Com ele, estava uma mulher que ele havia convencido da brisa que ela experimentaria caso o acompanhasse. Eles olhavam, cheios de compaixão, a multidão do outro lado, pois a maioria gritava dizendo ser o demônio que tomara conta dele e a mulher era apenas miragem para iludir os corações de que do outro lado era possível relacionar-se, continuar existindo. Ainda esperaram algum vivente desejar atravessar, mas precisavam continuar o caminho.
Estavam a alguns metros de distância da Cratera e ouviram os sons de uma voz gritante na madrugada. Retornaram esperançosos. Uma jovem perguntava como conseguiram tal façanha. O casal sabia que a jovem poderia ser a janela para convencer os outros a vencerem o obstáculo, a vencerem a força destruidora da Cratera. Olharam-se. O homem recebeu da mulher um meneio de confirmação. Então, ele começou demonstrando a estreita relação que há entre o vento, o caminho e a vida. Depois falou da Cratera como desafio a ser transposta, e nunca ser vista como condição do fim. Daquele tipo de Cratera haveria muitas a transpor, a conhecer; deixou uma mensagem para ela, enfim, para as pessoas refletirem:
Parar supõe em algum momento ter se movimentado. Movimentar-se supõe lugares novos a cada passo dado mesmo os mais antigos, pois nunca serão os mesmos. Parar é uma condição da caminhada, nunca seu destino. A vida, a fé, a felicidade está no caminho, na caminhad. Ela se renova a cada parada, a cada Cratera transposta. Olhar para trás, ver o caminho e debulhar os segredos. Olhar para frente, caminhar sonhando com o Horizonte.

Seguiram viagem. Confiados na intuição de que os olhos devem estar sempre postos no horizonte que nos desafia e nunca presos no caminho com suas Crateras que deveria nos fortalecer e não nos limitar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

PARA FLUIR O ESPIRITO I





Quando vemos as coisas como espinhos, ferirão conforme nossa convicção a esse respeito. A dor causada será mais profunda. Portanto, é preciso ver  nas trevas, angústias, solidão, é preciso olhar bem nos caminhos sem-saída, perscrutar os sentimentos de não-existência, ver, olhá-los como um trampolim que nos convida à aventura de sermos mais; ser quem somos no confronto com esses fantasmas que vestem nossa verdadeira essência reduzindo a vida - e com ela todos os sonhos que nós temos - a medos, solidão, falta de sentido, bobagens, pensamentos suicidas, falta de fé.
Para fluir o espírito é necessário ter coragem de se olhar no espelho de si mesmo e dizer com clarividência e convicção: Não sou o que as coisas querem que seja; sou o que Deus  quis na plenitude de seu amor ao me criar.

domingo, 17 de abril de 2011

GESTAÇÃO DA PEDRA





     A vida brotou de uma pedra. A ciência poderia encontrar uma explicação e a religião chamaria de milagre. Mas ciência e religião se opõem quando a questão é fundamentar. Ou não!? Bem, o certo é que o fato aconteceu e, ilusão ou não, a pedra encontrou um algo mais em sua inércia.
Era uma manhã tranqüila e corriqueira. À vista daquela massa sólida de terra comprimida, a vida acontecia. Não a dela, mas a dos outros que se lhe descortinavam, ora passivos, ora indignados, por sua ignóbil presença no caminho. Mas um fato mudaria para sempre o ser da massa sólida, melhor dizer, em respeito à sua dignidade, da pedra.
Um pássaro em busca de sossego para degustar seu alimento, sobrevoava a área escassa de árvores. Pousou sobre a pedra. A semente foi lançada pelo pássaro que havia feito sua refeição. Foi-se o pássaro. Talvez, nunca mais tornaria a voltar. Permaneceu a semente como lembrança daquela ceia. Seria impossível para a semente sobreviver e germinar naquelas circunstâncias; o sol não era favorável. A pedra não tinha qualidades ou carregava em si a façanha de gerar. Estava fadada à imobilidade, à infertilidade. Porém, a semente resistiu. Acreditava piamente na possibilidade, ainda que remota, de renascer da pedra.
Dias se passaram. Os raios solares a secavam. Ainda assim, contra toda ausência de sinais de vida, a semente permanecia firme na sua confiança e esperança depositada na pedra, que por força do destino a havia acolhido, ou melhor, suportado sua presença. Na verdade, a pedra achou aquilo um insulto daquele pássaro insano. - Onde já se viu deixar morrer em cima de seu nariz, a esperança, o início e o fim, enfim, a semente?! - Proferiu com ares de boa advogada de defesa.
Era evidente, não tinha como negar, a indignação por sua impotência em contribuir com alguma coisa... Com o tempo e a persistência da semente, a pedra, deixou-se vencer e, então, sentiu desejo de gerar, deixar gerar. Sorriu, achando loucura tais pensamentos e sentimentos que a acompanhavam. Amaldiçoou a estada da semente. Não era possível tal mudança em seu ser. Não havia essa possibilidade. Desejou que soprasse um vento violento e junto a levasse para bem longe. Mas a semente já estava colada, muito enraizada em suas nuances.
 De madrugada, a pedra sentiu calafrios e transpirou. Sonhava caminhos novos, no horizonte, uma linda flor apresentava-se diante dela. Causava-lhe tantas alegrias e gozos que mais e mais transpirava. Ao acordar, sentiu um leve peso, mais do que o costume. Chorou demoradamente pela flor que nela nascera. Sua inércia gerou movimento, e a força impetuosa do movimento transformou-se em vida.
A pedra que és jamais se tornará flor, não nasceu para isso, mas poderá ser capaz de gerar... Não há vida fechada, nem abismo, nem qualquer obstáculo posto à vida que faça morrer em ti a semente deixada por alguém, um sonho, sopro de vida. Aquilo que és capaz de realizar e o que verdadeiramente és vai muito além do que dizem ou do que pensas de ti mesmo.