sexta-feira, 20 de maio de 2011

CHAMA


Expostos sob o sol ardente que queima a pele
Uma brisa se deixa sentir nos olhos como mel
Diante do medo, desânimo dos passos latentes
Caminha a utopia nas veias como uma canção

Nos olhos fatigados de contemplar a dor
Retinas convidam para contemplar o belo
No coração que respira as tóxinas do ar
Os sonhos embebem o coração de amor

Na morte cotidiana do sentido da vida
A esperança e a beleza da Criação de Deus
Renasce em cada gesto de justiça e caridade
Germinando vida plena no deserto humano

Na ausência e perda do horizonte,
Olhares longes e abraços próximos
Fazem brotar a presença inesgotável
A saciedade na doação de si mesmo

No deserto das trevas da condição humana
O Espírito de Deus nos brinda a luz que atravessa
Inquieta e iluminando distante o espaço e o tempo
A luz que emana justiça e paz em toda escuridão

Diante da realidade que esvazia a utopia,
Esperança, amor, carinho, ética, estética…
Somos todos sementes a semear
A chama do amor:
Sonho de Deus!

terça-feira, 17 de maio de 2011

O PEIXE E A SECA


"Sejais fortes nas tribulações e perseverantes na oração"
 Rm 12


O riacho continha muitas espécies de peixes. Era um lugar bonito. Tranquilo. As águas claras revelavam a beleza do fundo. Os peixes coloridos iam e vinham majestosos. A vida acontecia como em qualquer outro ambiente. A maré subia e descia como de costume. O riacho tinha seus altos e baixos. Os peixes deviam estar atentos para seguir o curso da maré cotidianamente a fim de estender suas existências. Mas num belo dia - havia tempos que não acontecia naquela parte do riacho - um caso inédito se sucedeu. Ficaria registrado na memória do riacho como exemplo a ser seguido pelos demais habitantes; a ser contado sempre em qualquer época.  

Não conseguira acompanhar o curso das águas. Ficou isolado, sozinho ante a visão dos demais peixes. O peixe debatia-se apavorado na terra úmida do rio. Tentava sofregamente continuar respirando. As águas do riacho tinham descido e ele não conseguira ser rápido o suficiente para descer com elas. Era apenas mais um que todos os anos ficava ilhado. Certamente morreria como todos os demais que chegam a esse ponto. Seus olhos doíam só na possibilidade de ali mesmo sucumbir. Mas seu espírito era valente. Apesar do medo e da dor, manteve-se corajoso em não se entregar facilmente àquela realidade que agora estava exposto.

Os demais peixes, que já estavam acostumados àquela cena, de longe observavam o sofrimento do peixinho que teimava manter-se vivo a todo custo. A ousadia do peixinho ilhado chamou a atenção deles. Nada, porém, podiam fazer, pois além das águas terem baixado bastante, não iriam arriscar suas vidas. Naquele momento, afirmava-se com orgulho, a vida dependia única e exclusivamente do peixe. Ninguém mais a poderia prolongar senão a própria luta do peixinho encalhado. Para que tanto esforço, ele não vai conseguir mesmo! Com isso só prolonga seu sofrimento, diziam os mais pessimistas.

- As águas voltarão logo! - O peixinho repetia estas palavras como um mantra em seu coração angustiado o peixinho. Ele estava apreensivo, mas esperançoso. Seu corpo ia secando progressivamente devido à escassez de água. Porém, relutava bravamente para se manter firme até que retornassem as águas. Os outros peixes, cansados de verem tamanha angústia vã, seguiram seus caminhos lamentando a vida do peixinho que não agüentaria por muito tempo. Logo desistiria, morreria. Aliás, já tinha lutado o bastante. Por aquele gesto de coragem, era tido como um herói, pois muitos no baixar das águas, morriam ilhados em poucos instantes. Foram-se tristes seus companheiros, semelhantes.
O peixinho persistiu acreditando por mais que lhe dissessem o contrário, as águas ausentes e os demais peixes que seguiram seu rumo. Não permitiria que sua realidade apagasse seu desejo de viver. Elas não lhe diriam quando morrer. Sua escolha era respirar, viver. Suas guelras, por onde respirava, continha areia tamanho o esforço desprendido. A noite chegava. A cada instante tornava-se mais difícil a situação do peixinho. Com a noite veio um sereno, uma leve chuva que lhe molhou o corpo e lavou as guelras. O peixinho sentia-se animado. Contemplou de novo as águas doces do riacho. A esperança e a persistência. A teimosia em manter-se vivo fez com que o peixinho reencontrasse, por não desistir, as águas matutinas.

terça-feira, 10 de maio de 2011

FLUIR O ESPIRITO III




A manhã me desperta com o sol ainda escondido. Sei que aparecerá, mas há uma angústia que tenta me dizer o contrário. Não tenho raios artificiais para substituir sua presença. Apenas possuo a liberdade e a esperança de brilhar, ser brilho, reluzir com as memórias da lua e suas estrelas. Transformar o canto dos animais noturnos e o contorno do silêncio em sinais luzentes. Se tudo isso me faltar ainda terei a vontade e o sonho guardado que a realidade por mais absurda, hipócrita e cruel que seja jamais me roubará. No íntimo do coração o que conta é o desejo profundo, ainda que as dores tentem decidir que imagens pintaremos na tela de nossas pupilas matutinas.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

JANELA DA CONSCIÊNCIA




Fui caminhar bem cedo pela rua, com a esperança de encontrar na esquina os primeiros raios do sol. Abriu-se a janela de minha consciência. Desci os paralepípedos, pensativo. Que sentido teria um percurso deste tipo? O sol sempre estava lá! Dessa verdade não poderiam duvidar meus sentidos. Bom, eram meus questionamentos. Porém, havia uma sede de querer saber mais; anseio de simplesmente caminhar rumo a algo sem esperar, mas esperando. Sentir os pés no chão. As pisadas. Corpo despertando. Pulsar trêmulo nos primeiros latejos do dia.

Ao chegar à esquina espantei-me não com os raios sonhados, mas com uma claridade queimando meus olhares e acendendo as chamas de meus poros que eu nunca tinha visto ou sentido antes. Sempre passava por ali e jamais observei aquela luz radiante. Parei para contemplar o clarão que visitava meus olhos e invadia o espírito quase desperto. Descobri que aquela luz vinha de uma brecha de um pequeno casebre. Pus-me a caminho do casebre e adentrei seu interior. Era um cubículo meio sujo, mas muito aconchegante. Vi uma cadeira de balanço no canto esquerdo da casa. Dirigi-me a ela. Recostei-me. A vista do assento dava acesso a uma minúscula janela que ficava no alto. Então, ficou claro para mim do porquê da cadeira naquela posição. A luz entrava pela janela e escapava, espreitando-se, pela fresta que me trouxe até aqui. 

Não era só isso. Ainda havia algo de interessante no interior do casebre. Uma escada estava encostada na parede próxima da janela. Deduzi que era usada para espiar. Imediatamente, recoloquei-a mais perto, de tal forma que pudesse observar por ela. Subi inquieto pelo inesperado. Nesse momento, em que o olhar alcançou o beiral, os raios solares vinham ganhando espaço pelo capinzal, tornando-o ainda mais belo e reluzente. Minha vista, espantada, mas ligeiramente vislumbrada, deixou-se estar na escada tentando captar, teimosa, o horizonte de tal acontecimento.

Meu espírito, todo desperto, encantado, celebrou a curiosidade de minha alma, que antes nada queria, senão encontrar na esquina alguns raios solares. Terminou por encontrar algo maior que eles, mas que deles foram originados, muito além do que queriam meus instintos. Deparou-se com uma fagulha de conhecimento. E o conhecimento fez-me almejar sempre ir além do que pedem os passos. Ultrapassar as esquinas, brechas e pequenas janelas.

Aquela minúscula janela lançou-me para além do capinzal. Por sua vez, o capinzal lançou-me para além de mim mesmo. Sempre que para lá me direciono, busco ir além, teimoso, transcender o que meus olhos pensam enxergar. Fazer de minha curiosidade, meu querer mais, meus passos, realidade que me desperte pequenos raios solares capazes de sempre surpreender, revelando-me fagulhas de conhecimento, pedaços de mim.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

COMPLETARAM-SE OS DIAS...




Um ato de vontade.
Desejos se mesclam.
Carinhos, doces palavras,
toques...Reciprocidade.

Completaram-se os dias
De um amor fecundado!

Amor havia semeado
Fragrância de vida.
Exauria no organismo
Pelo frasco do ventre.

Completaram-se os dias...

Pula em teu seio a criança
Querendo o mundo conhecer,
Aquela que desde o germinar
Perscruta o encanto do ventre.

Completaram-se os dias...

A dimensão de tuas lágrimas
Ultrapassam as contrações.
Transmite intensa alegria,
Inundações de contentamento.

Completaram-se os dias...

Quer mergulhar nos braços
Sentir o calor de teu afago,
Carinhos, doces palavras,
toques...Reciprocidade.

Completaram-se os dias...

Ver seu reflexo!
Olhar Mãe e Pai.
Nove meses passados
Cuidado pelo coraçaõ.

Completaram-se os dias...

Ouvir silencioso, teu olhar
Tocar as pétalas do sorriso,
Cantar e habitar tua vida,
Respirar o mesmo ar.

Completaram-se os dias...

Quer conhecer ansiosamente
O frasco que a carregou.
Quer retribuir tanto amor!

Completaram-se os dias
De um amor fecundado:
Te tornas  mãe!

ACIMA DE TUDO, MÃE!




Tua dor escondida
Em tua alma ferida
Tece Mistério, luta.

O amor fia conduta.
Angústia te disputa.
Esperança é ousadia.
 
O olhar guarda o sonho.
Respirar fundo, risonho.
Coração latente, sereno.

 Cicatrizes que carregas.
Traumas que não esqueces.
Suspiro...anseio...prece.

Teu dom revelado
Em teu ventre gerado
Confecciona Mistério.

Mãe não é ser biológico.
Tão pouco é ser utópico.
Mãe é essência do amor.

Não vim festejar tua chaga.
Venho celebrar tua força:
Ser mãe, acima de tudo!

Mensageiro dessa força:

Força que nasce do alto.
Habita nas entranhas:
Rosto materno de Deus.